terça-feira, 18 de maio de 2010

POR NÃO GOSTAR DE ESTUDAR, O BRASIL NÃO APRENDEU COM A HISTÓRIA: Uma crítica a política externa brasileira e sua relação com o Irã

Por Demetrius Farias
Ontem a noite eu fiquei atento a todos os telejornais possíveis e imagináveis, na esperança de poder assistir o desfecho da hercúlea missão do companheiro Lula em convencer o companheiro Ahmadinejad a desistir de um programa de enriquecimento de Urânio para pesquisa e desenvolvimento de energia nuclear para o Irã. Aliás, a campanha promovida pelo Brasil não é bem esta. Lula e o Itamaraty já disseram por várias vezes que o Brasil defende o "direito" de cada nação poder desenvolver tecnologia em energia nuclear, desde que seja para fins pacíficos. Em outras palavras, Lula foi ao Irã apenas para pegar por escrito a promessa de Ahmadinejad de que ele não vai fazer nenhuma bomba atômica. Toda esta iniciativa tem por base um interesse particular: Lula quer deixar o governo garantindo para Dilma o direito do Brasil de também desenvolver a sua tecnologia em energia nuclear, livre de intromissões estrangeiras. Para tal, é necessário se colocar como um personagem ativo no mundo, intermediando com outros países que tem o mesmo interesse, a fim de que ao chegar a vez do Brasil, haja um respaldo que valide nossas intenções. Não sou contra o desenvolvimento de tecnologias para o Brasil, em que os EUA e a Europa já tem bastante experiência na área. O que me deixa mais irritado é apenas a atitude dos EUA e de outras Potências Ocidentais em que querer fiscalizara nossa política interna quanto ao desenvolvimento de energia nuclear, como o governo americano fez a algum tempo atrás quando enviou inspetores da ONU, para ver de perto o programa nuclear brasileiro, desconfiando a longa tradição do país em se manter longe de complicações e guerras. O Brasil ao se recusar a mostrar detalhes das usinas, desagradou o governo americano. Para os EUA e Europa, qualquer país que desenvolva tecnologia nuclear é uma ameaça, mas eles próprios advogam o seu direito de possuir armas e serem detentores da tecnologia atômica, para fins bélicos ou não. São dois pesos e duas medidas. Americanos e europeus apenas permitem as inspeções voluntárias e sem divulgar muita coisa, mas exigem que os demais países revelem tudo e se irritam quando estes decidem proteger o que é assunto de segurança nacional e segredo industrial. Afinal, nunca se sabe quando há um espião no meio da comitiva.



Por outro lado, o Brasil comete um erro crasso, no que se refere a sua política externa e na defesa sem sentido dos interesses do Irã. Ao passo que todos tem direito de possuir a energia nuclear, ninguém tem direito de possuir armas nucleares, e aí é que reside o perigo e a preocupação dos ocidentais. É o paradoxo da polêmica em torno desta forma de obtenção de energia. Fato: Armas nucleares são uma realidade, e sabe-se muito bem que basta um reator nuclear que enriqueça Urânio a 20% para que se desenvolva uma bomba atômica. A grande questão é: Quem pode possuir estas capacidades e quem não pode?
Hoje, se alguém perguntar a outra pessoa se a Alemanha Nazista tinha o direito de possuir armas nucleares, a grande maioria responderia um sonoro "NÃO", por motivos óbvios. A Itália fascista tinha o direito de possuir tecnologia nuclear? A mesma resposta viria. O Japão e as outras nações do Eixo também poderiam ter este direito. Acho que a resposta também seria a mesma. O mundo inteiro passou a temer seu futuro, quando a extinta URSS passou para o Hall de nações com arsenal de armas nucleares. Por duas vezes estivemos a beira de um Apocalipse atômico e até hoje, com a instabilidade das relações EUA e Rússia, além do mercado negro de ogivas de destruição em massa que vão parar nas mãos de terroristas e países com governos malucos, a ameaça ainda permanece.

Cabe agora a reflexão: É justa a defesa da causa iraniana feita pelo Brasil? Na minha opinião, Não!
Neste ponto, o companheiro Lula deve desconhecer totalmente alguns fatos históricos, bem como todo o seu Staff também deve desconhecer ou não aprendeu nada.
Se existem armas nucleares no mundo, eu prefiro mil vezes que elas estejam nas mãos de países mais democráticos, cuja probabilidade de tais artefatos serem usados seja menor, do que na mão de governos totalitários, populistas, fundamentalistas e de tendências revolucionárias. É uma constatação óbvia.
O Brasil comete hoje os mesmos erros cometidos pelos americanos, ingleses e franceses durante o final dos anos trinta, com relação a Alemanha Nazista.

Quem conhece a história vai lembrar do famoso Acordo de Munique, de 1938. Sei que alguns leitores também não sabem nada do assunto então vou contar um pouco sobre ele.
O Acordo de Munique foi um tratado assinado em 29 de Setembro de 1938, na cidade de Munique, na Alemanha, entre os líderes das maiores potências da Europa na época. O tratado foi a conclusão de uma conferência organizada por Adolf Hitler e mediada por Benito Mussolini, o líder do governo fascista da Itália.
O objectivo da conferência era a discussão do futuro da Tchecoslováquia e terminou com a capitulação das nações democráticas perante a Alemanha Nazista de Adolf Hitler. Este episódio ilustra melhor do que outros o significado da "Política de Apaziguamento", que Lula e o Itamaraty tanto acreditam.
A Alemanha nazista desejava mais matérias-primas e auto-suficiência em alimentos, almejava as colônias sob o controle da França e Reino Unido, e desejava petróleo e trigo da União Soviética. Conforme Hitler afirmou em Mein Kampf, ele queria também a união de toda a "raça" alemã que vivia em outros países e regiões (Renânia, Áustria, nos Sudetos da Tchecoslováquia e em Dantizig na Polônia) e expandir a Alemanha para territórios eslavos, para conseguir o Lebensraum (Espaço Vital), para que a raça alemã pudesse viver, instalando a "Nova Ordem".
Em Março de 1936, Hitler ordenou que o exército alemão ocupasse a Renânia, região cortada pelo rio Reno na fronteira entre França e Alemanha. Conforme estabelecido no Tratado de Versalhes, essa região devia permanecer desmilitarizada, mas Hitler ignorou esta regra. A maioria dos franceses não reagiu à ocupação da Renânia. Acreditavam que o inimigo do capitalismo democrático era o comunismo da União Soviética e não o nazismo. Os generais franceses não ficaram preocupados com a ação militar alemã na fronteira da França, confiantes nos métodos utilizados pelo exército na Primeira Guerra Mundial, e elaboraram uma estratégia de defesa prevendo uma guerra de trincheiras, com exércitos imóveis garantindo suas posições. Então ordenando a construção de uma longa fortificação percorrendo a fronteira germano-francesa, conhecido como Linha Maginot.
Em Março de 1938, Hitler anexou a Áustria à Alemanha, com o apoio do partido nazista austríaco, que preparou o caminho político para essa anexação, denominada Anschluss (União), que também era proibido pelo Tratado de Versalhes. A Anschluss foi confirmada por um plebiscito em Abril de 1938 sobre o lema "Ein Volk, ein Reich, ein Führer!" (um Povo, um Império, um Líder!), e o próprio Hitler foi visitar a Áustria, afirmando que o povo alemão nunca mais seria separado. Discurso muito parecido tem os líderes de Teerã, com seu pan-islamismo e postura anti-semita.
Logo depois Hitler passou a reivindicar também a anexação da região dos Sudetos, na Tchecoslováquia, habitada por 3 milhões de alemães. A Alemanha nazista acusou falsamente os tchecos de violências e opressão contra os alemães, e a imprensa da Alemanha, comandada por Goebbels, se encarregou de fazer anúncios sobre ondas maciças de ataques. Para discutir essa questão, convocou-se em Setembro de 1938 o Acordo de Munique. Pensando que essa seria a última reivindicação territorial de Hitler, a França e o Reino Unido permitiu a anexação dos Sudetos ao Reich, achando que Berlim não faria mais exigências. Será que vocês não vêm a história se repetindo? Eu vejo!
A Tchecoslováquia não foi convidada para a conferência, impedida de participar pelos alemães. A conferência é atualmente e vulgarmente conhecida na República Tcheca como a "Sentença de Munique". A frase "Traição de Munique" também é usada frequentemente, tendo em vista que alianças militares em vigor entre a Tchecoslováquia, Reino Unido e França foram ignoradas.
Foi alcançado um "entendimento", e a 29 de Setembro de 1938, Adolf Hitler, Neville Chamberlain, Edouard Daladier e Benito Mussolini assinaram um documento (olha só!), o Acordo de Munique. O ajuste dava à Alemanha os Sudetas (Sudetenland), começando em 10 de Outubro, e o controlo efectivo do resto da Tchecoslováquia, desde que Hitler prometesse que esta seria a última reivindicação territorial da Alemanha (ledo engano).
O "Companheiro" Chamberlain (o Lula inglês) foi recebido como um herói à sua chegada ao Reino Unido. No aeroporto de Heston, ele fez o famoso discurso, agora inglório, "Peace in our time" (Paz para o nosso tempo) e acenou com a folha de papel branca para uma multidão em delírio.
A ocupação alemã dos 4 distritos seria feita em etapas, entre 1 de Outubro e 7 de Outubro. Outros territórios de predominância germânica seriam especificados por uma comissão internacional composta por delegados de França, Reino Unido, Itália, Alemanha e Tchecoslováquia. A comissão internacional conduziria também eleições nos territórios em disputa.
Apesar de os franceses e ingleses estarem contentes, tal como a liderança militar e diplomática alemã, Hitler estava furioso. Ele achava que os seus diplomatas e generais o tinham forçado a agir como um político burguês.
Winston Churchill teria dito sobre Chamberlain quanto a este acordo: "Entre a desonra e a guerra, escolhestes a desonra, e terás a guerra".
A 10 de Março de 1939, Hitler, desrespeitando o tratado, ordena a invasão do restante da Tchecoslováquia e as tropas alemãs ocupam Praga. O país é dividido e a Eslováquia se torna um estado fantoche, alinhado com os alemães, perdendo partes do território para a Hungria. O Irã ameaça fazer o mesmo com este acordo assinado com o Brasil e a Turquia.

Pergunto a vocês: Será que não estamos vendo este filme de novo? Mudaram apenas os atores e o pano de fundo?
Está evidente que Lula e Celso Amorim faltaram a aula de história na escola. É inacreditável, como o ciclo se repete, e vemos mais uma vez a "Política de Apaziguamento" ser reeditada desta forma, e pelo governo brasileiro.
Concordo plenamente com as críticas americanas a esta conduta do Brasil. Lula e o Itamaraty são ingênuos e ignorantes quanto aos fatos envolvendo o Irã e o contexto envolvendo o Oriente Médio. 
Uma coisa que o Acordo de Munique nos ensina, é que não podemos confiar em país algum. E muito mais se este país for um estado ditatorial, totalitário, revolucionário ou outra modalidade de governo que oprima o povo e ameasse seus vizinhos e a estabilidade regional ou mundial. Jamais poderíamos aprovar um programa nuclear par o Irã, sabendo dos riscos reais que existem se tal programa for levado a produzir ogivas nucleares. Você aprovaria um programa nuclear para o Eixo durante os anos 30 e 40? Certamente não! É o paradoxo da Energia Nuclear: Todos tem direito, mas nem todos tem direito. E esta premissa sim deve nortear as políticas externas de qualquer país. Sou contra o desenvolvimento de tais meio em países como o Irã. Qual a razão? Eu tenho amor a vida!
Chamberlain caiu na história como um personagem inglório, e Lula corre o mesmo risco. Se por um lado, nosso país mantenha a tradição de ser uma nação pacífica e de cordialidade, esta mesmo tradição não pode ser tão infantil ao ponto de fazer vista grossa ao Irã, a Coréia do Norte, Cuba, Venezuela, etc.
Relativamente ao Irã, segundo David Albright, físico e analista americano, o Brasil errou mais uma vez. O Irã é um país com largo histórico de pactos e acordos descumpridos. Se eles ainda vão continuar a enriquecer Urânio, o Brasil não conseguiu vitória alguma em persuadir o Irã em desistir de qualquer tentativa de desenvolver a tecnologia nuclear para fins bélicos. O que o governo federal ganhou com isso, então? Fica a pergunta.
Como pode Lula confiar em Ahmadinejad? Como Lula pode ignorar os longos anos de ameaça iraniana ao Estado de Israel, e suas promessas de guerra e varrer os judeus da Palestina? Como pode o governo brasileiro estabelecer amizade política com um país que hoje constitui uma ameaça a paz no Oriente Médio? Não me admira isso, pois o nosso país infelizmente tem um histórico de namoricos com nações extremistas. Escapamos de participar do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial por muito pouco, para formar uma aliança Berlim-Roma-Rio de Janeiro-Tóquio, que só não deu certo devido ao tiro saído pela culatra dos alemães, que decidiram atacar a frota mercante brasileira na tentativa de incitar Getúlio Vargas contra os Estados Unidos, fazendo-o acreditar que os naufrágios foram de autoria estadunidense.
Se tais iniciativas do governo derem errado, e as possibilidades são reais e grandes, o Brasil cairá em seu maior fracasso diplomático da história atual, tendo a sua postura confundida e associada ao Irã, e caindo também em descrédito. Sua posição como candidato a membro permanente do Conselho de Segurança da ONU estará ameaçada e a imagem de Lula sofrerá um forte desgaste internacional. Na minha opinião, neste momento dos acontecimentos, qualquer pretensão a uma cadeira no Conselho de Segurança, já está comprometido. Pergunto mais: Qual o motivo do Brasil querer ascender a esta posição tomando um caminho tão difícil e possivelmente fadado a um retumbante mico internacional?
O pior de tudo é que se a Dilma for eleita, corremos o risco de perpetuar esta forma de política externa irresponsável e sem compromisso com a história. A que preço o Brasil está buscando relevância no cenário exterior? Só espero que não nos tornemos motivo de risos de nossos vizinhos, entrando para a história como os palhaços que fizeram as nações rir e chorar. Daqui a três meses, prazo para que o Irã cumpra sua parte no acordo, veremos o veredito final.

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